Em Portugal, a maior parte dos trabalhadores prefere ser “proprietário” do seu emprego — ou seja, garantir um posto estável numa empresa alheia — em vez de procurar tornar-se, mesmo que parcialmente, proprietário da própria empresa. Esta tendência contrasta com culturas empresariais de países onde o envolvimento no capital das organizações é visto como oportunidade natural de crescimento e independência económica.
O fenómeno não se explica apenas por falta de capital ou de oportunidades. Tem raízes profundas na cultura, no sistema educativo, na percepção do risco e na própria história económica do país.
A aversão ao risco é, em larga medida, um traço cultural português. Durante décadas, a economia nacional foi marcada por estabilidade aparente e por estruturas hierarquizadas, com poucas oportunidades de mobilidade social rápida através do empreendedorismo.
A expressão popular “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar” traduz bem esta mentalidade: a prioridade é preservar o que se tem, mesmo que modesto, em vez de arriscar para conquistar algo potencialmente maior. Esta prudência, que em tempos de instabilidade política e económica foi uma forma de sobrevivência, perpetuou-se como modelo mental dominante.
O período do Estado Novo (1933-1974) foi marcado por uma economia fechada e fortemente regulada, onde o papel do Estado e de grandes grupos económicos era central. O espírito de iniciativa empresarial existia, mas dentro de fronteiras bem definidas e, muitas vezes, associado a concessões ou relações privilegiadas com o poder.
Com a revolução de 1974, e particularmente no período de nacionalizações, criou-se um ambiente de desconfiança em relação ao capital privado e uma valorização do emprego público ou protegido. Ter um “emprego certo” passou a ser sinónimo de segurança social e pessoal. A ideia de investir capital próprio num negócio, com risco de perda total, soava a imprudência.
Sistema educativo e mentalidade
O sistema educativo português tem sido, historicamente, orientado para formar bons executores e não tanto criadores de empresas. O foco recai na aquisição de competências técnicas e na preparação para concursos, entrevistas e provas formais que conduzem a lugares já existentes, não na criação de novos lugares.
O ensino do empreendedorismo, quando existe, é frequentemente teórico e desconectado da realidade do mercado e os professores são quase sempre inexperientes em qualquer atividade económica produtiva ou mesmo militantemente adversos a uma aplicação realista dos princípios do capitalismo. Por isso, os jovens portugueses entram e saem das escolas e universidades sem conhecimento direto ou experiência prática em criar um negócio, angariar clientes ou gerir riscos financeiros.
O insucesso empresarial também é socialmente muito penalizado. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o “fracasso” é muitas vezes visto como experiência valiosa e parte do percurso de um empreendedor, aqui é encarado como mancha na reputação pessoal.
Um empresário que fecha portas por dificuldades financeiras é frequentemente visto como irresponsável ou incapaz, em vez de como alguém que tentou e acumulou aprendizagem. Esta estigmatização reforça o medo de empreender e a preferência por permanecer numa função remunerada fixa.
Capital e crédito
Embora a cultura seja fator determinante, não se pode ignorar a dimensão financeira. Em Portugal, o acesso a capital de risco é limitado e, muitas vezes, concentrado em setores de moda ou com projeção internacional. Para pequenos empreendedores, o crédito bancário é caro e condicionado por exigências de garantias pessoais e colaterais.
Isto significa que, para um trabalhador médio, o passo de investir numa empresa — seja criando-a de raiz ou adquirindo parte do capital — implica risco elevado e, muitas vezes, comprometimento de património pessoal. Face a estas barreiras, a decisão racional para quem procura estabilidade é manter-se como empregado.
Também é verdade que, ao contrário de outros países, muitas empresas portuguesas não promovem a entrada de trabalhadores no capital social. Programas de “stock options” ou participação nos lucros sob a forma de ações são raros, exceto em algumas multinacionais tecnológicas.
Sem instrumentos que permitam aos trabalhadores tornarem-se sócios de forma gradual e com risco controlado, a passagem de empregado para acionista permanece excecional. A cultura empresarial dominante mantém a propriedade nas mãos de um núcleo restrito, o que também limita a motivação dos colaboradores para assumir esse papel.
Direitos adquiridos
O sistema laboral português, com forte proteção contra o despedimento e benefícios associados à antiguidade, cria incentivos à manutenção do vínculo contratual. Um trabalhador com anos de casa tem direitos acumulados que, na sua percepção, representam segurança a longo prazo.
Ao ponderar trocar essa posição por um investimento de capital próprio, sujeito a falência, muitos concluem que o risco não compensa. Esta proteção, positiva em termos de justiça social, tem como efeito colateral a redução da mobilidade e do apetite por novas aventuras empresariais.
As gerações mais jovens mostram alguma mudança nesta tendência. A globalização, o contacto com realidades de outros países e a economia digital criaram espaço para novas formas de empreendedorismo, menos dependentes de capital inicial elevado.
Ainda assim, mesmo entre os mais jovens, nota-se que muitos preferem trabalhar por conta de outrem em empresas estáveis — especialmente no setor público ou em multinacionais — em vez de criar ou adquirir negócios. A instabilidade económica recente, com crises sucessivas, reforçou a busca por segurança.
Portugal tem uma elevada taxa de autoemprego e microempresas, muitas vezes de um único trabalhador. Porém, na maioria dos casos, trata-se de atividade por necessidade e não por vocação empreendedora. Estes negócios são frequentemente criados para gerar rendimento imediato e não para crescer ou expandir.
A ideia de investir, reinvestir e assumir riscos para aumentar a escala é menos comum, o que mantém a estrutura empresarial muito fragmentada e frágil.
Caminhos para mudar
Se queremos sair da cepa torta enquanto País sustentável temos de ser capazes de pagar as cada vez mais elevadas faturas da nossa independência – energia, Forças Armadas, abastecimento alimentar, segurança interna – e isso requer uma dimensão mínima do PIB que é, pelo menos, o dobro do que temos atualmente.
Num Mundo instável e numa economia de interdependências, tal como as empresas também os Países têm uma “linha de vida” em termos de tamanho mínimo do PIB – abaixo dos 500MM será difícil disponibilizar recursos ao Estado suficientes para nos mantermos autónomos e livres na decisão do nosso melhor interesse nacional.
Neste contexto, pouco adianta a filosofia barata ou o lirismo ignaro dos militantes das causas falhadas e tudo depende da capacidade de um número mais alargado de portugueses lançarem e defenderem as suas iniciativas empresariais, criando riqueza e distribuindo o rendimento que evita a emigração dos melhores e apoia a criação de novas famílias na sua terra.
A preferência portuguesa por ser “proprietário do emprego” e não “proprietário da empresa” é um traço cultural que tem de ser destruído, de forma gradual, mas inexorável, desmontando esta paralisia da ambição que transformou os portugueses em medrosos e reacionários, travestidos de retórica progressista.
Mudar este cenário exige mais do que políticas pontuais: requer uma transformação profunda na forma como o país encara o risco, o capital e o próprio significado de sucesso profissional. Por muito que doa a alguns, o trajeto necessário exige o desmantelamento de algumas arquiteturas jurídicas que só protegem o status quo. Só assim será possível criar um ambiente onde o trabalhador veja, na ambição de ser também dono, não uma ameaça à sua segurança, mas um caminho viável para prosperar.
