A inteligência está sobrevalorizada

Vivemos numa era em que a inteligência é frequentemente vista como o atributo supremo. Desde os tempos escolares até ao mundo profissional, os mais inteligentes são celebrados, promovidos e, muitas vezes, considerados os mais aptos para liderar, inovar e resolver os grandes problemas da sociedade. No entanto, esta convicção, embora compreensível, está longe de ser infalível. A inteligência, por si só, não é garantia de sucesso, nem de virtude, nem sequer de utilidade social. Como dizia o meu avô Lopes, ao ouvir certos discursos no pelourinho de Freixiel: “O tipo até é inteligente, só é pena é dar-lhe para o mal.”

Esta frase, simples mas profunda, encerra uma verdade que muitos ignoram: a inteligência pode ser usada para o bem ou para o mal, e não é necessariamente acompanhada por qualidades como a ética, a coragem ou a humildade. A história está repleta de exemplos de indivíduos brilhantes que causaram mais dano do que benefício, precisamente porque lhes faltava aquilo que realmente transforma a inteligência em valor: o carácter.

A crença de que os mais inteligentes são os mais habilitados para resolver problemas ou criar soluções é uma simplificação perigosa. Na realidade, o sucesso — seja ele pessoal, profissional ou social — está muito mais associado a outras qualidades humanas, muitas vezes subestimadas. A coragem, por exemplo, é essencial para enfrentar desafios, tomar decisões difíceis e persistir perante o fracasso. Sem coragem, até o mais brilhante dos planos permanece apenas uma ideia.

A lucidez é outra qualidade fundamental. Ser lúcido é ver o mundo como ele é, sem ilusões nem distorções. É reconhecer os próprios limites, os erros cometidos e as consequências das nossas ações. A inteligência pode ajudar a construir argumentos sofisticados, mas só a lucidez permite discernir o que realmente importa.

A capacidade de sacrifício é também um pilar do verdadeiro progresso. Muitos dos grandes feitos da humanidade foram alcançados por pessoas que se dedicaram, que abdicaram do conforto, que trabalharam arduamente sem garantias de reconhecimento. A inteligência pode facilitar o caminho, mas é o esforço que o percorre.

A modéstia, por sua vez, é a chave para a aprendizagem contínua. Quem se julga demasiado inteligente tende a fechar-se à crítica, à dúvida e à experiência dos outros. A modéstia permite-nos aprender com os erros, ouvir os que sabem mais — ou apenas diferente — e crescer com cada desafio. É ela que nos impede de cair na arrogância, esse veneno que transforma a inteligência em presunção.

Por fim, a ética. A capacidade de autorregular o comportamento segundo princípios morais é talvez o maior diferencial entre o génio destrutivo e o sábio construtivo. A ética orienta a inteligência para fins nobres, para o bem comum, para a justiça e a dignidade. Sem ética, a inteligência torna-se uma ferramenta perigosa, capaz de manipular, explorar e prejudicar.

É curioso notar que, em muitos contextos, os verdadeiros líderes e inovadores não são os mais inteligentes, mas os mais íntegros, os mais resilientes, os mais humanos. Pessoas que, mesmo sem um QI extraordinário, conseguem mobilizar equipas, inspirar confiança, tomar decisões acertadas e criar valor duradouro. São essas pessoas que fazem a diferença — não por serem brilhantes, mas por serem corajosas, lúcidas, humildes, esforçadas e éticas.

A sociedade precisa urgentemente de rever os seus critérios de valorização. Continuar a idolatrar a inteligência como se fosse um dom absoluto é ignorar a complexidade da natureza humana. Precisamos de reconhecer que há muitos tipos de sabedoria, e que a inteligência lógica ou analítica é apenas uma delas. A sabedoria emocional, a sensibilidade social, a capacidade de escuta, a empatia, a visão estratégica — tudo isso conta, e muitas vezes conta mais.

Não se trata de desvalorizar a inteligência, mas de colocá-la no seu devido lugar. Ela é uma ferramenta poderosa, sim, mas só é verdadeiramente útil quando guiada por valores sólidos e complementada por outras virtudes. Um martelo pode construir uma casa ou destruir uma parede — tudo depende de quem o segura e com que intenção.

Portanto, da próxima vez que ouvirmos alguém ser descrito como “muito inteligente”, talvez devêssemos perguntar: “Sim, mas é corajoso? É lúcido? É humilde? É ético?” Porque, como dizia o avô Lopes, inteligência sem carácter é como um cavaleiro sem rumo — pode ir longe, mas não sabemos para onde.

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