A vida é um fósforo e viver é ter a coragem de riscar

Há imagens que dizem mais do que muitas teorias. “A vida é um fósforo” é uma dessas imagens. É curta, simples e abrasadora. Contém em si uma verdade antiga e profunda: a de que a existência é breve, luminosa e frágil. Que nasce de um gesto, de um atrito, e que em poucos instantes pode iluminar ou extinguir-se.

Esta metáfora, tão pequena quanto um palito de madeira, convida-nos a pensar o sentido da vida, a brevidade do tempo e o modo como escolhemos gastar a chama que nos foi dada.

Um fósforo acende-se com um gesto decidido, um toque preciso que provoca o milagre do fogo. Assim também é a vida: começa com um instante de faísca — um encontro de células, uma combinação improvável de circunstâncias, uma centelha que, de súbito, faz existir o que antes não era. Esse começo contém já o destino: tudo o que é vivo tende a arder, a transformar-se, a gastar-se.

Quando o fósforo se inflama, o ar muda. Há calor, luz, um breve espanto. É a consciência a nascer — o primeiro olhar, o primeiro grito, o primeiro susto. O fogo do fósforo é o símbolo da vitalidade que nos atravessa: energia em movimento, desejo de iluminar o que está à volta. Mas também traz consigo a promessa da sua própria extinção. O fósforo sabe, desde o início, que vai morrer.

A chama e o propósito

Enquanto arde, o fósforo cumpre o seu sentido. Não existe para durar, mas para servir: acender outro fogo, aquecer, iluminar um caminho, queimar o escuro. Assim é o ser humano — não nascemos para a eternidade, mas para o instante em que somos úteis, em que damos luz ou calor a outro ser, em que deixamos qualquer coisa acesa atrás de nós.

O tempo da chama é breve, mas intenso. É nesse curto intervalo que o fósforo é plenamente ele próprio. Uma vida longa e apagada não vale mais do que uma chama curta e luminosa. Há pessoas que brilham durante pouco tempo e deixam uma marca que perdura — artistas, pensadores, heróis anónimos, mães, professores, amigos. Cada um, à sua maneira, transforma o breve clarão da sua vida num sinal duradouro.

A verdadeira sabedoria talvez seja aceitar esta condição efémera e não temê-la. Saber que o valor da vida não se mede pela duração, mas pela intensidade e pelo sentido que damos à nossa chama.

O risco da combustão

Viver é também um perigo. O fósforo pode arder de forma descontrolada, consumir-se demasiado depressa, ou queimar quem o acende. A vida, quando vivida sem consciência, transforma-se em fogo destruidor. Há paixões que consomem, ambições que reduzem tudo a cinzas, egoísmos que se alimentam da própria chama até à exaustão.

Mas também há o risco inverso: o de nunca ser aceso. Muitos fósforos passam a vida fechados na caixa, intactos, protegidos do vento e da chuva — e, por isso, inúteis. Representam as vidas que nunca se arriscaram, que nunca arderam por nada, que preferiram o conforto da segurança à beleza do risco.

Um fósforo só cumpre o seu destino se for aceso. Uma vida só se realiza se for vivida — com coragem, com entrega, com a disposição de se queimar por algo que valha a pena.

Luz que se multiplica

O mais belo no gesto de acender um fósforo é a possibilidade de ele acender outros. Um só fósforo pode iluminar centenas, desde que toque o momento certo de outro palito. Assim também a vida: o seu verdadeiro valor está em fazer nascer mais luz.

Um professor que desperta o gosto pelo saber num aluno, um médico que devolve esperança a um doente, um amigo que reacende a alegria num coração cansado — todos são fósforos que transmitem chama. A humanidade avança porque cada geração acende a seguinte.

Mesmo quando a chama se apaga, o gesto permanece. O calor que deixámos em alguém continua a arder, de forma invisível. Talvez seja essa a única forma de eternidade possível: a de continuarmos acesos nos outros.

O instante antes do fim

Há um momento em que o fósforo chega ao fim. A chama treme, diminui, sobe um pouco mais e depois desaparece. Fica o cheiro do fumo, o vestígio do que foi. É o retrato da morte — silenciosa, inevitável, natural.

Mas o fim não é apenas destruição. O fósforo, ao arder, transforma-se. A madeira torna-se cinza, a energia vira luz e calor. Nada se perde — apenas muda de forma. A morte é o regresso ao silêncio, à substância da terra.

Saber que somos um fósforo é, paradoxalmente, libertador. Obriga-nos a valorizar o presente, a não desperdiçar o que é curto, a viver com urgência, mas também com atenção. Cada dia é um fósforo que se acende — e não há como repeti-lo.

A caixa de fósforos

Podemos imaginar a humanidade como uma grande caixa de fósforos. Milhares de pequenas vidas aguardam o toque que as fará arder. Umas acendem-se cedo e apagam-se depressa; outras resistem ao vento e brilham por mais tempo. Há as que se quebram antes de acender, e as que iluminam todo um horizonte.

O importante é perceber que nenhuma chama é igual à outra, e que todas, mesmo as mais breves, têm um papel. A caixa só faz sentido porque contém diversidade — como a sociedade, onde cada pessoa é um potencial foco de luz.

Há, porém, um cuidado a ter: a chama não deve servir para incendiar a caixa. O fogo que ilumina não é o mesmo que destrói. Viver em comunidade é aprender a usar o fogo de forma justa — dar calor sem queimar, dar luz sem ofuscar.

Entre o fogo e a sombra

O fósforo ensina-nos também a importância da sombra. A luz só se revela porque existe escuridão. A vida só ganha sentido quando enfrentamos a noite — o sofrimento, a dúvida, a perda. O contraste dá espessura ao nosso existir.

Quem nunca conheceu o escuro, dificilmente valoriza a luz. A chama é frágil, e talvez por isso tão bela. Saber que pode apagar-se a qualquer instante torna-a preciosa. O mesmo acontece com a vida: é a sua finitude que a torna digna de ser vivida.

“A vida é um fósforo” — esta imagem simples contém uma ética, uma estética e uma esperança. Ética, porque nos chama à responsabilidade de usar bem a nossa energia. Estética, porque nos recorda a beleza da luz breve. Esperança, porque enquanto houver alguém disposto a acender um fósforo, o mundo não estará completamente às escuras.

Podemos ser faísca, chama, ou apenas o gesto que acende. Mas nunca devemos deixar de procurar o fogo que nos habita.

No final, talvez a vida seja isto: um breve clarão no meio do tempo, uma centelha que ilumina rostos e desaparece. Um fósforo que arde, cumpre o seu destino e aceita o silêncio depois da luz.

E se a vida é um fósforo, então viver é ter a coragem de riscar.

Scroll to Top