Vivemos num tempo em que o paradigma social é o acesso instantâneo, livre e gratuito às novas “armas digitais” – redes sociais globais que transformam cada indivíduo num emissor potencial de informação, opinião e emoção, ou seja num criador/editor de conteúdos.
A internet nasceu como promessa de liberdade e democratização do conhecimento, mas tornou-se um vasto espaço de exposição onde cada um pode “abrir a boca” para partilhar com o mundo tudo o que lhe apetecer — do mais sublime ao mais trivial, do mais verdadeiro ao mais destrutivo.
Este novo poder comunicacional, que à primeira vista parece libertador, contém em si uma armadilha: a ilusão de interatividade total.
Os algoritmos das grandes plataformas, desenhados para maximizar o tempo de permanência e o envolvimento emocional dos utilizadores, filtram e moldam o que cada um consegue ver, criando bolhas de afinidade que nos fazem acreditar que estamos em diálogo com o mundo, quando na verdade estamos encerrados em câmaras de eco onde apenas ouvimos versões ampliadas das nossas próprias opiniões e emoções.
Assim, a “interatividade” é mais potencial do que real e em vez de um espaço de encontro, a rede torna-se um campo de tensão, onde a exposição permanente e o confronto imediato substituem a reflexão e o debate ponderado.
O resultado é um ecossistema de comunicação saturado e conflituoso. As redes sociais alimentam o choque de ideias e sentimentos, transformando a divergência em hostilidade e o desacordo em ofensa.
A partilha incessante de opiniões, emoções e juízos instantâneos multiplica os mal-entendidos e as reações impulsivas. A comunicação, em vez de aproximar, fragmenta. A exposição, em vez de libertar, aprisiona-nos no teatro da aparência.
Acesso às armas e o risco da desordem
O que sucede nas redes sociais não é, afinal, muito diferente do que acontece nas sociedades onde a posse e o uso de armas estão liberalizados. Quando todos têm uma arma ao alcance da mão, a probabilidade de que alguém a use é apenas uma questão de tempo. A lógica implícita do sistema incentiva o uso da arma, mais cedo ou mais tarde.
Da mesma forma, num ambiente digital em que cada cidadão tem uma “arma comunicacional” pronta a disparar — um smartphone, uma conta numa rede social, um canal de difusão — é inevitável que muitos a usem de forma irrefletida, agressiva ou destrutiva.
As consequências são visíveis: discursos de ódio, campanhas de difamação, manipulação emocional, perseguições e polarização extrema. A violência digital pode não derramar sangue, mas destrói reputações, perturba a saúde mental e desestrutura comunidades.
Tal como nas sociedades fisicamente armadas, a simples presença de milhões de “armas comunicacionais” cria um clima de medo e de tensão permanente, um estado latente de guerra civil simbólica.
Esgotamento dos meios repressivos
Num mundo que caminha para institucionalizar esta forma de viver e agir — simultaneamente violenta e desregulada — torna-se evidente que os mecanismos repressivos tradicionais são insuficientes.
A desproporção entre criminosos e polícias, entre ofensores e defensores, entre emissores de desinformação e instituições que tentam combatê-la, é cada vez mais impraticável. A tecnologia avança mais depressa do que as leis, e a capacidade de dano cresce mais rapidamente do que a de reparação.
Assim como nenhuma polícia física consegue controlar um país em que todos estão armados, também nenhuma autoridade digital consegue controlar uma rede onde milhões de indivíduos agem com irresponsabilidade e impunidade.
A repressão pura e simples — seja através da censura, do bloqueio ou da vigilância — é não só ineficaz como perigosa. Gera ressentimento, incentiva o radicalismo e corrói a confiança social.
A cultura e o autocontrolo
A única alternativa sustentável é a construção de uma ordem cultural, baseada na valorização do autocontrolo, da cooperação e do sentido de bem comum. Não se trata de um ideal utópico, mas de uma necessidade civilizacional. Tal como o progresso técnico exige normas de segurança e responsabilidade, o progresso comunicacional exige maturidade ética e emocional.
Educar para o uso responsável da palavra — oral, escrita ou digital — é hoje tão importante como ensinar a ler e a escrever. O autocontrolo não é repressão do impulso, mas consciência das consequências. É a capacidade de medir o impacto do que se diz e faz. É, em suma, a versão moderna do antigo ideal do domínio de si, que os estoicos consideravam o maior dos poderes.
A cooperação, por sua vez, é o antídoto contra o tribalismo digital. Só quando reconhecemos que o espaço público pertence a todos — e que cada gesto comunicativo o pode enriquecer ou degradar — conseguimos superar o impulso destrutivo.
A cultura, entendida aqui como conjunto de valores partilhados, é o cimento invisível da convivência. Sem ela, a liberdade transforma-se em ruído e o pluralismo em conflito permanente.
Defesa do interesse geral
Por fim, a defesa solidária do interesse geral implica agir com firmeza contra os que reiteradamente promovem a desordem e o confronto. Nenhum preço é alto demais se for o custo justo para proteger os direitos legítimos dos cidadãos que desejam viver em paz.
A sociedade deve encontrar mecanismos claros, legais e transparentes para isolar e responsabilizar quem usa a liberdade de expressão como arma de destruição. Tal como se fez com o hooligans no futebol, também é preciso banir de todas as plataformas aqueles indivíduos ou organizações que cometem crimes graves no mundo digital. Naturalmente isso requer muita reflexão jurídica, muita tecnologia e muita cooperação judiciária.
Mas essa ação só será legítima se for acompanhada por uma profunda regeneração cultural. Não basta punir; é preciso prevenir. Não basta calar o ruído; é preciso ensinar a ouvir. A verdadeira ordem não nasce do medo, mas do respeito mútuo e da consciência do limite.
Tal como uma sociedade armada só é segura quando os seus cidadãos têm disciplina, uma sociedade interligada só será livre se os seus membros souberem governar-se a si próprios. O caminho da ordem construtiva é, pois, o caminho da cultura — e o primeiro passo dessa cultura é o domínio de si mesmo.
