Só arde o território com poucos eleitores

Todos os verões, as televisões portuguesas enchem-se de imagens de serras a arder, aldeias ameaçadas e populações aflitas. Aparentemente, trata-se de uma tragédia natural e inevitável, provocada pelo calor, pelo vento ou pela falta de ordenamento florestal.

Mas a explicação realista é mais profunda e mais desconfortável: em Portugal só arde o território que tem poucos habitantes e que, por razões do sistema eleitoral, contam pouco politicamente.

Cerca de 80% da população reside no litoral, sobretudo nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto. Em apenas 30% dos municípios concentram-se oito em cada dez portugueses. O interior vai ficando vazio, envelhecido e sem voz. E é precisamente aí, onde há cada vez menos eleitores, que as chamas encontram espaço e combustível.

Não arde o litoral porque não tem o que arder. As praias, as urbanizações costeiras, as zonas industriais e agrícolas intensivas reduziram ao mínimo o risco de grandes incêndios. Lisboa, Porto ou Aveiro dificilmente verão uma serra inteira consumir-se em chamas.

É natural, portanto, que a esmagadora maioria dos portugueses prefira “queimar-se na praia” em vez de correr o risco de “se queimar na aldeia dos avós”. O litoral é denso, protegido e politicamente central. O interior é rarefeito, inflamável e periférico.

A política das televisões

Quando as serras ardem, os políticos correm para o terreno. Mas não é pelas pessoas afetadas – são poucas, envelhecidas e com reduzida capacidade de reivindicação. É pela pressão mediática, pelo impacto das imagens que ocupam horas de noticiários.

Assim que as câmaras se afastam, regressa a indiferença. Os habitantes recebem algumas promessas e meia dúzia de benesses autárquicas que servem para sossegar a sua fraca força reivindicativa. O essencial permanece intocado: o interior continua despovoado, vulnerável e esquecido.

Em democracia contam os votos – e os votos estão no litoral. Investir seriamente na revitalização do interior traria custos elevados e ganhos eleitorais diminutos. É por isso que, década após década, a desertificação humana prossegue, transformando aldeias em ruínas, campos em mato e florestas em combustível.

No litoral decide-se o rumo político, económico e cultural do país. O interior tornou-se uma memória sentimental, invocada em discursos, mas abandonada na prática.

O despovoamento é o maior aliado das chamas. Sem pessoas, não há vigilância, não há gestão ativa da paisagem, não há contenção natural do fogo. Há apenas mato e impotência

A verdade incómoda

Dizer que “só arde o território que não tem pessoas” não é retórica: é a constatação de que os incêndios são o espelho mais violento do desequilíbrio territorial português. Não são uma fatalidade climática. São uma consequência política e social.

Enquanto não for tomada a decisão de pagar – e pagar bem – aos habitantes dos concelhos do interior o seu serviço de preservação da Natureza esqueçam essa treta de tentar apagar incêndios com bombardeiros de água – é apenas ridículo e ruinoso.

Portugal está partido em dois. Um litoral moderno, urbano e protegido e um interior rarefeito, invisível e vulnerável, que arde todos os verões. Arde porque, na economia portuguesa, valem mais as praias cheias do que as aldeias vazias.

Só um pagamento substancial aos habitantes do interior poderia reconfigurar os verões de Portugal. Não é fácil, mas é possível. E sobretudo seria mais barato e economicamente mais racional distribuir a quem habita o País todo o ano os 600 milhões de euros que se gastam no combate aos fogos, só durante o verão.

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